Tornava-se normal só te apetecer gritar, lançar ao vento a angústia que te ia no peito. Era natural visto que de repente tudo aquilo a que chamavas rotina se havia perdido. Os teus sonhos, a tua estabilidade, o teu apoio, o teu dia a dia.Já nada permanecia igual, nem estático. Tudo havia desaparecido e já nada restava para além da mágoa duma vida desfeita, dum passado presente apenas no coração, agora despedaçado. Parece que eras a menina dos olhos deles e de repente passaram a ver-te como adulta - que não és - capaz de tratar de ti, sozinha. Não é verdade, precisas deles, talvez mais que nunca, e eles parecem não estar lá para te ouvir, para perceber no teu olhar o que a tua mente divaga diariamente. É normal que a vontade do quotidiano tenha desaparecido, pouco te prende, pouco te cativa, pouco te faz bem. Vives com uma máscara constante que apenas tiras nos momentos de segura - mas que tefaz vacilar - solidão. Os jantares, que antes eram de mesa cheia, agora resumem-se a três pratos, e às vezes - grande parte das vezes - , são apenas dois. Antes havia gritos, palhaçadas, risadas e até as discussões eram "dilemas" bons que vias e vivias pela casa fora, agora... agora o teu grande dilema é decidir entre a sala ou o teu quarto para passares a maioria do teu tempo visto que a casa está tantas vezes tão vazia que nem dá gosto. O sufoco que antes tentavas calar com o olhar e que de tão pouco valia, dado o conhecimento que de ti tinham, agora mesmo que o digas por palavras parece indiferente aos ouvidos e corações que sempre foram a tua primeira e última esperança e auxílio. Corrias para lá quando não havia outra opção, era o teu porto seguro e agora nada mais parece do que um estranho. Dois estranhos na verdade. Como disse, é normal que te apeteça gritar - e calar ao mesmo tempo - pois deixaste de ser a menina protegida e passaste a ser só mais uma. Ainda te vês como criança que precisa daquele abraço paternal que parece já não estar lá. Sabes que na realidade é algo que nunca vais perder mas não tens coragem de o procurar, de o agarrar e dizer "estou aqui e preciso de ti". O mundo parece ter-te voltado as costas e sentes que o buraco onde estás a entrar é tão maior que qualquer outra coisa neste momento que só queres recuar, mas parece tarde de mais, precisas daquela mão amiga, naquele pulso firme e forte que te tire desse caminho e ele parece desaparecido. Nada faz sentido agora, é tudo um mar de confusões que em nada te acalmam. Só precisavas de voltar a sentir-te segura de ti e daquilo que te rodeia. Infelizmente não vês luz ao fundo do túnel.
Mas não desistas. Dos fracos não reza a lenda.
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