só mais um passo. só mais uma palavra. só mais um pedido. só mais um sonho. só mais um desejo. volta. só mais um bejo de despedida no qual morreremos os dois, abraçados, sem pensar nas consequências que dali, na verdade, não advirão. porque apenas a morte se lhe segue. apenas as cinzas, o pó, apenas a recordação não recordada por dois corpos fundidos num só depois de um último toque. depois tudo cai. e tudo fica. mesmo ali, bem perto de ti, e de mim, e de nós que agora somos uma alma de dois corpos. não partas. olha bem para o relógio. ainda é cedo. fica mais um bocadinho. vamos partilhar as recordações dos tempos em que brincávamos juntos no escorrega e quando me empurravas o baloiço. e depois quando me batias à porta de casa e me desafiavas para um passeio pelo jardim e corriamos. corriamos tanto que quando a relva bem verdinha daqueles campos nos puxava ficávamos horas e horas a conversar, entre risinhos e gargalhadas entusiasmadas, deitados, barriga para cima a ver as nuvens passar. quando juntos inventávamos desenhos que diziamos feitos de nuvens. e depois, já ao crepúsculo iamos para casa - e as portas das nossas casas eram lado a lado - e nesse caminho para casa roubavas as flores do jardim do Sr. Abílio - vizinho resingão, mas que tinha as flores mais bonitas da cidade inteira, e as mais bonitas que vi até hoje , confesso. E nos dias mais frios, quando despias para que eu não tivesse frio. E julgávamo-nos eternos irmãos inocentes, ainda não conheciamos o incesto que mais tarde viémos, segundo esta ordem de ideias, a querer cometer.
E hoje aqui estou, eterna inconsciente. Alzheimer... não me lembro de que falava. Desculpa. Quem és?
Só mais um suspiro, peço.
http://www.youtube.com/watch?feature=endscreen&NR=1&v=IRTR8pD6AhU
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